Mão amiga enviou-me excelente artigo do Dr. Pedro Afonso, publicado no Público, 2010-06-21 médico psiquiatra. Aqui transcrevo um excerto. São sempre perigosos os excertos pelo risco que algo fora do contexto pode comportar. Penso que não altero o espírito da prosa que achei particularmente sábia e cheia de humanidade. A minha pequenez não me permite conhecer o autor, a quem endereço, em quanto cidadão anónimo o meu obrigado pelo que disse e porque ao dize-lo vai renovando como outros aqui e acolá a esperança na existência de gente séria e com dignidade no nosso país.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.